
Acabo de assitir Spellbound (cujo título em português ficou o grotesco "Quando Fala o Coração"), de Alfred Hitchcock, suspense de 1945, bem antes dos clássicos que o renomam até hoje. Logo nos créditos iniciais aparece o nome de Ingrid Bergman, o que causa uma boa impressão, sem sombra de dúvida. Logo em seguida Salvador Dalí é mencionado como inspirador para a sequência de sonhos que aprecerá no decorrer da trama. Fechando os dois primeiros minutos de película, um prêambulo nos avisa que a história a seguir falará sobre a psicanálise, recheando nossas mentes de expectativa. Afinal, o que esperar de Hitchcock, Salvador Dalí e psicanálise reunidos em uma só história? Porém, logo na sequência inicial, a expectativa é quebrada por atuações que de longe destoam daquelas que nós, expectadores contemporâneos, estamos acostumados. O estilo teatral dos atores soa forçado, suas reações não parecem vir do âmago, a magia se quebra ao ver mudanças de comportamento bruscas em personagens que deveriam ser mais aprofundados. Os atores se movem como estátuas, ou melhor, marionetes, pelo cenário. Nesse ponto se pensa: mais um filme água com açúcar dos anos quarenta... E a impressão vai se reforçando com o passar do enredo. Fica pior quando o personagem central chega e ocorre o clássico envolvimento com a mocinha da história. Aqueles closes típicos dos filmes preto e branco dos anos quarenta se repetem incessantemente e a história parece não se sustentar. Passados trinta minutos da trama, não só a história do personagem central se torna aparentemente óbvia, como também cresce a inquietação para que a tal sequência de sonhos inspirada em Dalí apareça de uma vez para tentar salvar alguma coisa do filme. Ou seja, decepção completa. Embora Hitchcock tenha produzido obras geniais, fica parecendo que seu início foi um pouco obscuro, com romances mal concatenados enveredando para o que de mais básico se fazia em Hollywood naquela época. Nesse ponto segue-se uma fuga do hospital psiquiátrico onde até então a história se deseronlava. Os personagens vão para Nova Iorque e a célebre aparição do diretor, aos trinta e oito minutos do filme parece marcar uma diferenciação no tratamento do enredo. As atuações já não parecem mais tão forçadas, talvez pelo acomodamento de situações gerados pela repetição (algo como Dogville, de Lars von Trier). O ambiente cosmopolita de Nova Iorque impele ao surgimento de personagens mais amadurecidos (salvo o segurança do hotel onde o casal se encontra, que é totalmente inverossímel). 
É depois de aparecer na tela que Hitchcock começa a aparecer atrás da tela. A primeira cena realmente tensa do filme ocorre quando os dois chegam à casa do Dr Bulov, brilhantemente interpretado por Michael Chekhov, que forja uma paródia divertidíssima de Freud. Só esse personagem já apaga qualquer impressão ruim deixada nos sessenta minutos anteriores. As cenas na casa do professor agora são típicamente hitchcockianas, com sequências e frames de "cortar" o fôlego. A cena em que o personagem de Gregory Peck olha o professor através do copo de leite é magnifica. E logo em seguida, a tão esperada sequência de sonhos. Não há palavras com as quais descrever a beleza com que os diretores de arte reproduziram os arquétipos e estereótipos de Salvador Dalí. A sequência é realmente fascinante, aliada à narração em off, assume um caráter de suspense magnífico. São apenas cem segundos de imagens oníricas, mas o regogizo que elas proporcionam é imensurável. Não bastasse isso, o filme continua crescendo, restando apenas vinte minutos para o final. O que outrora parecia uma forma desleixada de tratar a psicanálise, mostra-se então, principalmente na figura do Dr. Brulov, de forma totalmente aceitável e compreensível, lembrando sempre que esse é um dos primeiros filmes hollywoodianos a falar sobre o tema. O personagem central descobre a origem de seu trauma com uma cena impressionante (principalmente para os padrões da época) e o mistério todo é resolvido à melhor maneira detetivesca, explicitando, por sinal, seu forte flerte com o cinema noir.

É depois de aparecer na tela que Hitchcock começa a aparecer atrás da tela. A primeira cena realmente tensa do filme ocorre quando os dois chegam à casa do Dr Bulov, brilhantemente interpretado por Michael Chekhov, que forja uma paródia divertidíssima de Freud. Só esse personagem já apaga qualquer impressão ruim deixada nos sessenta minutos anteriores. As cenas na casa do professor agora são típicamente hitchcockianas, com sequências e frames de "cortar" o fôlego. A cena em que o personagem de Gregory Peck olha o professor através do copo de leite é magnifica. E logo em seguida, a tão esperada sequência de sonhos. Não há palavras com as quais descrever a beleza com que os diretores de arte reproduziram os arquétipos e estereótipos de Salvador Dalí. A sequência é realmente fascinante, aliada à narração em off, assume um caráter de suspense magnífico. São apenas cem segundos de imagens oníricas, mas o regogizo que elas proporcionam é imensurável. Não bastasse isso, o filme continua crescendo, restando apenas vinte minutos para o final. O que outrora parecia uma forma desleixada de tratar a psicanálise, mostra-se então, principalmente na figura do Dr. Brulov, de forma totalmente aceitável e compreensível, lembrando sempre que esse é um dos primeiros filmes hollywoodianos a falar sobre o tema. O personagem central descobre a origem de seu trauma com uma cena impressionante (principalmente para os padrões da época) e o mistério todo é resolvido à melhor maneira detetivesca, explicitando, por sinal, seu forte flerte com o cinema noir.
Enfim, uma trama que inicia medíocre, provavelmente visando a grande massa de espectadores, acaba se revelando complexa e tensa ao melhor estilo Hitchcock de fazer cinema. Crescendo sutilmente aos olhos do espectador, cercando-o aos poucos, para, subto, abocanhá-lo dentro de um enredo magistralmente tecido. Esse é um excelente exemplo de como funcionava a mente calculista do diretor. Hitchcock não queria ser um diretor para poucos, um "cult". Ele sabia manejar o público de maneira sagaz; qualquer público. E vendo seus filmes, até parece brincadeira de criança...

Spellbound (EUA, 1945)
Direção: Alfred Hitchcock
Adaptação: Angus MacPhail sobre romance de Francis Beeding
Roteiro: Ben Hecht
Fotografia: George Barnes
Produção: David O. SelznickDireção de Arte: James Basevi
Elenco:
Ingrid Bergman............Dr. Constance Petersen
Gregory Peck...............John Ballantine/Dr. Antony Edwards
Michael Chekhov.........Dr. Alexander Brulov
Leo G Carroll................Dr. Murchinson
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